Anjo Da Guarda
Capitulo Um - Gêmeas
-Corri Gabriel, anda! –
gritou Sara olhando para a parede. Ela havia marcado uma área e disse para
Gabriel que era o gol. Estavam jogando futebol há horas. – Sonia você não vem?
Gabriel não quer brincar só comigo.
-Não, quero ficar aqui
com minhas bonecas. – respondeu Sonia sentada na varanda observando a irmã. Ela
levou toda a sua coleção da Barbie para fora. Era dia do chá.
-Gabriel, anda logo,
você não pega a bola. – gritou a menina. Sara passava boa parte discutindo ou
se divertindo com Gabriel. A menina tinha cabelos loiros na altura do queixo,
olhos azuis, e pequenas sardas no rosto. Sonia era idêntica.
-Não sei por que brinca
com ele. –disse Sonia ajeitando a Barbie enfermeira na cadeira de balanço
miniatura.
-Brincar com quem? –
perguntou a mãe das gêmeas. Uma mulher loira com cabelos longos, olhos verdes.
Mal aparentava a idade, mas sentia os cinquenta anos pesarem nas costas. Ainda
mais sendo mãe de gêmeas de doze anos.
-Ela esta brincando com
Gabriel, de novo mamãe. – respondeu Sonia.
-E você não quer
brincar com ele? – perguntou o pai saindo de dentro da casa e sentando-se na
cadeira de balanço ao lado dos brinquedos da filha.
-Se ao menos eu o
enxergasse. – riu enquanto servia chá invisível para a Barbie veterinária. Os pais se
entreolharam, a mãe pegou uma pequena bíblia e começou a ler enquanto o pai
fumava um charuto fedorento. Sara sentou-se ao lado da mãe e acompanhou a
leitura. Ela abriu espaço no pequeno banco para Gabriel. O pai observou o gesto
e sorriu, nem ele nem a mulher enxergavam Gabriel, mas, ao contrario de Sonia
não achavam que a filha era louca, mas sim uma menina abençoada por se orgulhar
em dizer que um anjo a acompanha e brinca com ela sempre.
A noite caiu e as
meninas foram para a cama, Sonia rezou rapidamente ajoelhada nos pés da cama e
se deitou. No outro quarto Sara conversava com Gabriel, mostrava para ele a
foto do rapaz que ela gostava na internet. Parecia feliz ao ver que Gabriel
ficou quieto olhando a tela. A mãe bateu na porta de deu o aviso.
-Meia noite filha reze
e vai dormir, boa noite Gabriel. – a filha riu com a frase, desligou o computador
ajoelhou-se a frente da cama e com as mãos juntas começou a rezar.
Santo
Anjo do Senhor,
Meu
zeloso guardador,
Pois
que a ti confiou a Piedade divina,
Hoje
e sempre
Governa-me,
rege, guarda e ilumina.
Amém.
E foi dormir. Nas
sombras da casa escura algo se moveu, subindo as escadas parou a frente do
corredor escolhendo qual quarto adentrar. Um estrondo alto e Sonia acordou com
o grito da irmã.
-Gabriel salva Sonia,
Salva a Sonia! ! ! – silencio. Passos foram sentidos do lado de fora do quarto.
A porta se abriu e uma sombra saltou sobre Sonia. Ela gritou e a luz do quarto
se acendeu. Era a mãe com a roupa suja de sangue. Ela pegou a menina e desceu
as escadas. Mas onde estava Sara? A noite se arrastou e Sonia
se assustava cada vez mais quando a campainha tocava. Primeiro a policia,
depois os bombeiros, logo um carro da pericia e depois o carro da funerária.
Sonia queria saber onde estava à irmã, queria subir até o quarto, mas os pais
não deixaram. O dia amanheceu e Sonia foi mandada para a casa de sua tia
Sephine irmã de seu pai. A jovem não sabia por que tinha de usar preto logo
hoje, não iam a igreja, não sabia por que não fora para a escola, mas se
desesperou ao ver Sara no caixão.
A irmã morta usava um
lenço amarelo, cor favorita de Sara no pescoço. –para esconder a cicatriz – ela ouviu a tia Sephine sussurrar para
um dos primos mauricinhos que não paravam de fazer perguntas. Mas que cicatriz?
Sonia não tinha nenhuma, ainda mais no pescoço. Será que a irmã havia se
machucado ontem de manhã no jardim? Ela escutou outros falarem ainda mais baixo
para que ela não escutasse. –e aquela
estrela de três pontas no pulso da coitadinha, que Deus a tenha. Que
estrela? Sara não tinha tatuagem, ou tinha? Não sabia. Quando a mãe se
desesperou e o pai não suportou a perda, Sonia pode entender que daquele dia em
diante ela estava sozinha, perdera seu reflexo, sua alma gêmea, perdera sua
irmã.
16 anos depois.
Sonia arrumava seu
guarda roupas, já havia dias que se mudara da casa dos pais e não estava nada
arrumado. Ela separou uma gaveta para seus matérias de trabalho que se resumiam em sua arma, munição e
distintivo, arma de choque e spray de pimenta. A jovem agora com seus 28 anos
se tornara uma excelente policial, mas preferiu seguir o ramo de investigadora,
quase que nunca usando a arma e sim a inteligência. A loira se tornara uma
mulher sensual, tinha uma tatuagem de um dragão nas costas e passava as tardes
de domingo bebendo Passport observando as estrelas. Seu celular tocou e ela
reconheceu o numero, antes de ouvir a voz falou zombando do homem que ligava.
-Estou de folga. – ela
sorria enchendo o copo com mais Passport.
-Nosso trabalho não tem
folga estou aqui em baixo. Vamos logo, temos um dos seus. – o homem desligou
sabendo que a frase “temos um dos seus” alegraria jovem. Sonia pegou a arma e o
distintivo, vestiu a calça jeans e os sapatos pretos, prendeu os cabelos e
correu sete lances de escadas já que o
elevador demorava e entrou no carro de Patrick sorrindo de felicidade.
-Onde? – perguntou
eufórica.
-Primeiro boa noite, e
depois na Praça da Sé, acabaram de me avisar. -o homem sorria para ela.
-Ótimo então vamos. –
ela batia a mão no teto do carro. Patrick acelerou seguindo a avenida sentido
centro.
Sonia morava em um
bairro pobre próximo a estação Vila das belezas na zona sul, seu prédio era um
dos contrastes da paisagem. De um lado favelas e barrancos do outro um paraíso
construído para satisfazer os mais abastados. Seu condomínio era enorme, tinha
três piscinas e um salão de festa de dar inveja, ela gostava de lá, mas passava
boa parte de seu dia ajudando nos projetos sociais do bairro. Todas as crianças
adoravam a tia Sonia.
-Você disse que era um
dos meus, anda fala. – Sonia estava ansiosa
-A menina foi
encontrada morta na fonte da Praça. Disseram que escutaram o grito e mais nada. -Patrick fazia a curva na avenida. Sonia limpava o painel que estava cheio de bitucas de charutos mastigadas.
-E isto faz este ser um
dos meus? – ela o encarava. O homem negro de bigode e sobrancelhas bem feitas
era seu mentor, a conhecia desde que adentrou na academia e a fez seguir
carreira como investigadora por causa de sua inteligência sem igual.
-Desde seu primeiro
caso, tudo é estranho, motivo sem fundamento e assassinos que fingem estar
mortos ou se escondem atrás da pele e cordeiro. Bom temos um grito e um
assassino fugitivo, é um dos seus. – ele ria atento a cada curva na avenida.
-E qual é o seu caso,
um dos seus. – ela o encarava. Arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
-Mulheres indefesas e
trombadinhas. – ela riu alto, estavam próximos ao centro. Pararam na lateral da
Igreja, saíram e caminharam lado a lado até cena do crime.
-Ferimento pós mortem.
–disse ela analisando o pescoço da jovem defunta. Um corte profundo dividia o
pescoço da loira.
-Quantos anos? –
perguntou Patrick recolhendo as digitais. – vinte? Não talvez dezoito. – ele
falava sozinho.
-Ela tem vinte e um. –
interrompeu um homem forte de cabeça raspada. –encontramos a carteira na água,
é uma prostituta local. – ele sorria.
-Pelo sorriso você a
conhecia. – Sonia o encarava, retirou as luvas e pegou o documento do homem.
Ela nem pediu que o cara já havia lhe entregado.
-Conhecia? – forçou
Patrick
-Moro na região, ela
fazia serviço a domicilio e eu era cliente dela. Liguei para ela me encontrar
na porta do meu prédio, como ela não apareceu vim ver se encontrava alguém. –
ele sorria debochado. – mas só tinha uns travecos e eu não curto isto, escutei
o grito e corri para cá, logo a reconheci. O nome dela é Giselle.
-Quero que vá até o
distrito e conte isto ao delegado. – Patrick lhe entregava um cartão com o
endereço.
-Sou suspeito? - o homem ficou pálido.
-Não, ainda não. –
disse Sonia tirando fotos do corpo da jovem. Agachou-se e levantou a blusa da
moça. Estava com o peito machucado e tinha uma marca, aparentemente queimada a
ferro em seu seio direito. Sonia tirou três fotos.
-Ei Pat olha isto. –
disse ela balançando a foto que acabara de ser revelada pela Polaroid de tela
digital. Entregou a ele que disse:
-É um dos seus. – ele
analisou a foto entregando-a para o homem careca. –Já que era cliente da...
Giselle me diga... conhecia o corpo dela? – Patrick sorria.
-Sim claro cada parte,
ela era perfeita. – começou a chorar.
-Antes que eu me
emocione me responda outra coisa. Ela tinha esta marca na ultima vez que saíram?
– ele virou a foto. O homem arregalou os olhos.
-Não, ela nem gostava
de tatuagens, vivia me dizendo que não eram certas. Ela era religiosa. – ele
encarou Sonia que guardava o crucifixo de Giselle em um saco de provas.
-Religiosa, de onde eu
venho rameiras nem entram na igreja. – Sonia caminhou até o carro olhou para o
homem dizendo:
-Não saia da cidade, e
nem desapareça.
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